segunda-feira, 1 de julho de 2013

Nota em um caderno vermelho de páginas quadriculadas:

"PARA O PROCESSO DA BELLA:
imagem: alguém que carrega durante toda a obra, uma bicicleta pesada nas costas.

_Aludindo posibilidade/probabilidade de trânsito, eminência em ir, nunca indo".

imagem de referencia: Soldados italianos carregando bicicletas dobráveis durante a Primeira Guerra Mundial.


Relendo meu último texto - criação a partir da criação.

Ouvi essa música hoje e ela fala coisas que eu gostaria de falar.
http://www.youtube.com/watch?v=OTaxBkQ8jl4

Resolvi escrever de novo porque lembrei de umas coisas.
1. A favela onde eu morei, chamada Barreira do Vasco, talvez tenha parte das casa removida para os próximos eventos esportivos. Há um projeto de ampliar a rua que dá acesso a comunidade e ao estádio de São Januário.
2. Um dia minha mãe me disse, no meio de uma conversa: sabe o que eu queria? eu queria ter sido médica ou professora. Continuamos conversando, calmos, sorrindo. Depois fui no quarto e chorei. Pensando que ela concluiu o primário quando eu estava no ensino médio, que eu lembre... Lembrei de como eu era uma criança arrogante, que ensinava o modo correto de falar, e de como as pessoas gostavam disso. Essa arrogância a gente não pode ter como artista. Arrogância infantil. Por isso postei a música do Gil, e não do Caetano. Por mais que eu ame Caetano.
3. Chove.
4. Gostei da ideia da Nina no último post dela.
5. Mas podemos ter uma arrogância infantil se brincarmos de ser criança. Acho isso bom. Adoro quando a criança vem!
6. Aquele dia dos sons foi muito significativo pra mim (a proposta de Bella). Se conectar misteriosamente. Comunicação não-verbal. Raiz do movimento. Raiz do som. 
7. E a televisão continua o mesmo nojo de sempre. O CQC, inclusive. Aquela humorista, muito boa, por sinal, com muita técnica, perguntando se as pessoas sabiam cantar o Hino Nacional. Mas é do Hino que precisamos? E será que as pessoas aprenderam o Hino na escola? E será que as pessoas foram na escola. Não. Eu digo porque eu sei (bato no peito como uma entidade enviada para dizer isso): as pessoas não foram à escola. Mas essas pessoas sabem que é um absurdo o aterro do Flamengo Jesus tsc tsc um dia o mar vai tomar o que é dele. Entre outros saberes necessários para o próximo milênio, eu não li esse livro mas parafraseio. A Globo vira piada na Argentina. Fico feliz. Mas depois lembro que as pessoas não sabem espanhol. As pessoas na sala de jantar. Mas as pessoas na sala de jantar. Assistem a novela com música do Gonzaguinha, que já foi gravada pela Bethânia, mas agora recebe uma gravação especial do Daniel. (Fui arrogante?)
8. Pesquisar funks desconhecidos ou esquecidos, o marginal do marginal. 


Depois da febre pode ser um bom título

Vou escrever desordenadamente tudo que devia ter escrito há muito tempo. Agora, mais frio, tudo fica mais pobre também. E tenho tentado escrever uns poemas. Deixo aqui os rascunhos desse meu processo de criação.

Lucas Nascimento está triste
quebraram o canteiro de flores
Lucas Nascimento está inerte
As coisas se apologizam
Lucas Nascimento está íngreme
Como um motor que enlouquece
Um balanço quero dizer
Porque quebraram o canteiro de obra
digo de flores
o canteiro de obras de obras das flores
Essa paisagem de luz, alumínio
quisera eu ter sabido
mas essa paisagem
de alumínio e muita luz.

Entre a classe média e a favela, eu disse, tentando me colocar diante dos gritos. Porque fui atingido no meu sofá. Porque eu tinha uma história e perdi. Porque nunca participei de nenhuma ONG, então como fazer uma arte favelada? Porque eu eu tinha uma história e perdi, porque não disse, perdi a memória da língua, a memória da boca, a memória da articulação, a memória do maxilar. Porque não fui à Maré. Porque fui atingido no sofá mas, antes disso, fui atingido por quatro balas divulgadas como perdidas na minha força, na minha mão, na minha migração, na minha tradição, no meu pão, café, vinho, santa ceia, na minha estrada dias a pé, viação Itapemirim, becos, fios, praça, feira de Itaipava, invasões policiais, escola municipal 175 joão de camargo, atingido no meu domingo, duque de caxias, no meu olhar cheio de terra espanto surpresa desconfiança ameaça medo raiva inveja e dificuldade para compreender certos signos. Raiz antieletrônica. Quando não se tem acesso à rede, quando não se sabe usar um computador, quando as letras no teclado não afzem sentido, quando se pede ajuda para ligar um aparelho de TV, um aparelho celular, uma máquina fotográfica. Em algum lugar tudo se toca, e sei que é plantando e colhendo. Mas no meu sofá isso não pode ser. Estou tentando fazer algo útil mas minhas questões de ego me puxam para um conflito íntimo. Eu prosseguiria num texto cheio de entres, entre a classe média e a favela, entre a universidade e os analfabetos, mas esqueci, devo estar mais resolvido hoje.
A única maneira de não ser vítima é sendo criminoso. Quero dizer pra mim. Quero dizer pro meu discurso.
Violência presa na goela, nos pulsos.
Para não me tornar uma pessoa insuportável. Respiração, força, anos de estudo. Mas troquei pelo cigarro.

Talvez
porque menos com menos é positivo
Esse modo de me manter vivo
Esse modo de me manter morto
Esse modo esse medo
Mistério, sorriso torto
Disfarce adquirido através de muita técnica ih anos de estrada
Havia algo que rimava com cio, perdi o verso
e o cio
ali na esquina
mas silencio. Silêncio. Santo vazio por dentro
Algo que rimava com raiva
E lá estava eu
E lá estava
E lá estava eu
Eu lá estava
Vivo.

Hoje faz falta da raiva que joguei fora. Eu devia estar jogando lixeira dentro da Alerj. Como quem salta de uma cachoeira muito alta. Atirar uma bomba na Alerj. Como quem salta de uma cahoeira muito alta. Mas sem estilo, por favor, se for possível.
Quero conversar com as pessoas nos trens, nos ônibus. Quero ser a louca do trem. Proposta pra composição. Só consigo pensar nisso. Me tornar a louca do trem. E sair pelas ruas gritando, falando só.
Julio me impressionou muito no último encontro. Fiquei feliz. Fui atingido por ele. Uma leve agressão necessária. Ele deu uma lixeirada na minha cabeça, fiquei um pouco perdido. Entendi umas coisas. Entendi o que é impulso, o que é imediato, o que não é mental, o que é humano, ou o que ainda é humano.
Mesmo assim fiquei pensando nos atos simbólicos, nas imagens que representam coisas, nas ações que são importantes porque representam. Elas não bastam. Elas representam porque foram imediatas, elas se deram em relação, e nosso olho registrou como símbolo. Nosso olho registrou como imagem, como algo emblemático.
O que fazer que possa ser simbólico, espetacular e "eficiente"?
O que fazer que possa ser um modo de relação, algo que fiquei na ação, no momento, e seja "eficiente"?

Me apaixonei pela paixão de todos.

Enquanto tudo acontece eu durmo, de verdade. Hoje dormi à tarde e sonhei que a gente se encontrava na praça em frente à casa do Pedro. Usávamos uma casa daquelas pra ensaiar, um apartamento de primeiro andar. Eu tinha outro compromisso depois, pessoas desse outro compromisso chegavam: Bruna e Marcelo Isabella perguntava se alguém queria começar. Eu respondia sonoramente que sim, exageradamente feliz, mas desistia de ler o que eu queria ler. Mesmo assim a gente continuava meio eufórico. Propus que todos dançássemos. Começamos. Dora também estava lá dançando. Eu dançava de verdade, e de repente me sentia falso, mexendo demais o corpo: isso me deixava rígido, me fazia bater o pé com força no chão. Houve uma dispersão, as pessoas saíram da sala. Num quarto, num canto, eu conversava com Tomás, que estava triste, com o cabelo cortado de modo fashion. Ele não queria ter feito isso, mas, como disse, seus cachos tinham se desmanchado, ele estava com cabelo liso (sem interferência, assim, misteriosamente), então teve de fazer um corte novo. Ele olhava pouco nos olhos, falava baixo, e minha preocupação o pressionava e acuava, porque estávamos num canto e eu fazia muitas perguntas. Esse quarto tinha luz, mas lembro que o resto da casa tinha luz da rua ou de abajures, ou uma luz muito fraca e recortada. Era uma casa mais comprida do que quadrada, talvez isso tenha dispersado a dança, acho que não ficamos em roda, perecia um corredor de pessoas. Tinha muitos móveis, mas espaço pra dançar.

OBS.: Não sei o que quero dizer com "as coisas se apologizam"

Luquinhas


composição contra a velha ou para uma nova democracia

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Video projetado ao fundo do cinturão de Choque da PM. Projeção cobrindo a parede.

Elax entra pelo lado esquerdo, deslizando sobre patins roller. Usa glitter e maiô. Figurino inspirado nos anos 70, geométrico e movente. Colorido.

Elx entra e dança ao som de http://www.youtube.com/watch?v=Tth-8wA3PdY .

(ver clip)

Em dado momento, elx cai estateladx no chão, abruptamente, lembrando um corpo que cai ao ser atingido por um tiro.

Fica no chão.
Todos acham que o corpo morreu e não voltará.

Tempo depois, o corpo se levanta e volta a dançar.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Keren na Psicologia e reunião

Keren vai à universidade!

Em busca do tempo que deveríamos perder!

Criar é construir um outro campo gravitacional, um outro espaço-tempo. 

Asterius como espaço-tempo de resistência. 

Arte como resistência a forças normatizadoras e serializantes

Reunião

Micro-roteiros de resistência

Terapia da associação livre
Livre associação de Afetos
livres - até certo ponto
Do que?
Vareia.
Falsa questão? Nem tanto. É importante saber a que resistimos. Prestar atenção, pois as forças mais fortes (extensivamente) nos atravessam todo o tempo.
Meu interesse é na criação de um espaço de resistência que a própria construção, bem como seus efeitos, seja uma fuga. Um respirar. 

Conspirar é respirar juntos. 
Cons piremos. =)

Palavras

Tem gente que consegue ficar amiga das palavras. com as quais as palavras são generosas, se entregam, aparecem aos montes, dançando. 
Eu não sou dessas pessoas.
Pelo menos ainda não (de novo). 
Minhas palavras são aquelas velhas. As palavras novas passam, mas custam a ficar...Elas não se interessam, fazer o que...
Meu negócio são as pessoas. Essas sim! Pra quem acredita em sorte, dou uma sorte danada, porque os mais interessantes são os que ficam e se dão.
...É! aqueles que estão em busca dessa energia vibrante que faz mover. 

Meu desafio agora é, então, convocar, seduzir as palavras, outras palavras, também vibrantes, para dizerem dessas pessoas ilimitáveis.