segunda-feira, 1 de julho de 2013

Nota em um caderno vermelho de páginas quadriculadas:

"PARA O PROCESSO DA BELLA:
imagem: alguém que carrega durante toda a obra, uma bicicleta pesada nas costas.

_Aludindo posibilidade/probabilidade de trânsito, eminência em ir, nunca indo".

imagem de referencia: Soldados italianos carregando bicicletas dobráveis durante a Primeira Guerra Mundial.


Relendo meu último texto - criação a partir da criação.

Ouvi essa música hoje e ela fala coisas que eu gostaria de falar.
http://www.youtube.com/watch?v=OTaxBkQ8jl4

Resolvi escrever de novo porque lembrei de umas coisas.
1. A favela onde eu morei, chamada Barreira do Vasco, talvez tenha parte das casa removida para os próximos eventos esportivos. Há um projeto de ampliar a rua que dá acesso a comunidade e ao estádio de São Januário.
2. Um dia minha mãe me disse, no meio de uma conversa: sabe o que eu queria? eu queria ter sido médica ou professora. Continuamos conversando, calmos, sorrindo. Depois fui no quarto e chorei. Pensando que ela concluiu o primário quando eu estava no ensino médio, que eu lembre... Lembrei de como eu era uma criança arrogante, que ensinava o modo correto de falar, e de como as pessoas gostavam disso. Essa arrogância a gente não pode ter como artista. Arrogância infantil. Por isso postei a música do Gil, e não do Caetano. Por mais que eu ame Caetano.
3. Chove.
4. Gostei da ideia da Nina no último post dela.
5. Mas podemos ter uma arrogância infantil se brincarmos de ser criança. Acho isso bom. Adoro quando a criança vem!
6. Aquele dia dos sons foi muito significativo pra mim (a proposta de Bella). Se conectar misteriosamente. Comunicação não-verbal. Raiz do movimento. Raiz do som. 
7. E a televisão continua o mesmo nojo de sempre. O CQC, inclusive. Aquela humorista, muito boa, por sinal, com muita técnica, perguntando se as pessoas sabiam cantar o Hino Nacional. Mas é do Hino que precisamos? E será que as pessoas aprenderam o Hino na escola? E será que as pessoas foram na escola. Não. Eu digo porque eu sei (bato no peito como uma entidade enviada para dizer isso): as pessoas não foram à escola. Mas essas pessoas sabem que é um absurdo o aterro do Flamengo Jesus tsc tsc um dia o mar vai tomar o que é dele. Entre outros saberes necessários para o próximo milênio, eu não li esse livro mas parafraseio. A Globo vira piada na Argentina. Fico feliz. Mas depois lembro que as pessoas não sabem espanhol. As pessoas na sala de jantar. Mas as pessoas na sala de jantar. Assistem a novela com música do Gonzaguinha, que já foi gravada pela Bethânia, mas agora recebe uma gravação especial do Daniel. (Fui arrogante?)
8. Pesquisar funks desconhecidos ou esquecidos, o marginal do marginal. 


Depois da febre pode ser um bom título

Vou escrever desordenadamente tudo que devia ter escrito há muito tempo. Agora, mais frio, tudo fica mais pobre também. E tenho tentado escrever uns poemas. Deixo aqui os rascunhos desse meu processo de criação.

Lucas Nascimento está triste
quebraram o canteiro de flores
Lucas Nascimento está inerte
As coisas se apologizam
Lucas Nascimento está íngreme
Como um motor que enlouquece
Um balanço quero dizer
Porque quebraram o canteiro de obra
digo de flores
o canteiro de obras de obras das flores
Essa paisagem de luz, alumínio
quisera eu ter sabido
mas essa paisagem
de alumínio e muita luz.

Entre a classe média e a favela, eu disse, tentando me colocar diante dos gritos. Porque fui atingido no meu sofá. Porque eu tinha uma história e perdi. Porque nunca participei de nenhuma ONG, então como fazer uma arte favelada? Porque eu eu tinha uma história e perdi, porque não disse, perdi a memória da língua, a memória da boca, a memória da articulação, a memória do maxilar. Porque não fui à Maré. Porque fui atingido no sofá mas, antes disso, fui atingido por quatro balas divulgadas como perdidas na minha força, na minha mão, na minha migração, na minha tradição, no meu pão, café, vinho, santa ceia, na minha estrada dias a pé, viação Itapemirim, becos, fios, praça, feira de Itaipava, invasões policiais, escola municipal 175 joão de camargo, atingido no meu domingo, duque de caxias, no meu olhar cheio de terra espanto surpresa desconfiança ameaça medo raiva inveja e dificuldade para compreender certos signos. Raiz antieletrônica. Quando não se tem acesso à rede, quando não se sabe usar um computador, quando as letras no teclado não afzem sentido, quando se pede ajuda para ligar um aparelho de TV, um aparelho celular, uma máquina fotográfica. Em algum lugar tudo se toca, e sei que é plantando e colhendo. Mas no meu sofá isso não pode ser. Estou tentando fazer algo útil mas minhas questões de ego me puxam para um conflito íntimo. Eu prosseguiria num texto cheio de entres, entre a classe média e a favela, entre a universidade e os analfabetos, mas esqueci, devo estar mais resolvido hoje.
A única maneira de não ser vítima é sendo criminoso. Quero dizer pra mim. Quero dizer pro meu discurso.
Violência presa na goela, nos pulsos.
Para não me tornar uma pessoa insuportável. Respiração, força, anos de estudo. Mas troquei pelo cigarro.

Talvez
porque menos com menos é positivo
Esse modo de me manter vivo
Esse modo de me manter morto
Esse modo esse medo
Mistério, sorriso torto
Disfarce adquirido através de muita técnica ih anos de estrada
Havia algo que rimava com cio, perdi o verso
e o cio
ali na esquina
mas silencio. Silêncio. Santo vazio por dentro
Algo que rimava com raiva
E lá estava eu
E lá estava
E lá estava eu
Eu lá estava
Vivo.

Hoje faz falta da raiva que joguei fora. Eu devia estar jogando lixeira dentro da Alerj. Como quem salta de uma cachoeira muito alta. Atirar uma bomba na Alerj. Como quem salta de uma cahoeira muito alta. Mas sem estilo, por favor, se for possível.
Quero conversar com as pessoas nos trens, nos ônibus. Quero ser a louca do trem. Proposta pra composição. Só consigo pensar nisso. Me tornar a louca do trem. E sair pelas ruas gritando, falando só.
Julio me impressionou muito no último encontro. Fiquei feliz. Fui atingido por ele. Uma leve agressão necessária. Ele deu uma lixeirada na minha cabeça, fiquei um pouco perdido. Entendi umas coisas. Entendi o que é impulso, o que é imediato, o que não é mental, o que é humano, ou o que ainda é humano.
Mesmo assim fiquei pensando nos atos simbólicos, nas imagens que representam coisas, nas ações que são importantes porque representam. Elas não bastam. Elas representam porque foram imediatas, elas se deram em relação, e nosso olho registrou como símbolo. Nosso olho registrou como imagem, como algo emblemático.
O que fazer que possa ser simbólico, espetacular e "eficiente"?
O que fazer que possa ser um modo de relação, algo que fiquei na ação, no momento, e seja "eficiente"?

Me apaixonei pela paixão de todos.

Enquanto tudo acontece eu durmo, de verdade. Hoje dormi à tarde e sonhei que a gente se encontrava na praça em frente à casa do Pedro. Usávamos uma casa daquelas pra ensaiar, um apartamento de primeiro andar. Eu tinha outro compromisso depois, pessoas desse outro compromisso chegavam: Bruna e Marcelo Isabella perguntava se alguém queria começar. Eu respondia sonoramente que sim, exageradamente feliz, mas desistia de ler o que eu queria ler. Mesmo assim a gente continuava meio eufórico. Propus que todos dançássemos. Começamos. Dora também estava lá dançando. Eu dançava de verdade, e de repente me sentia falso, mexendo demais o corpo: isso me deixava rígido, me fazia bater o pé com força no chão. Houve uma dispersão, as pessoas saíram da sala. Num quarto, num canto, eu conversava com Tomás, que estava triste, com o cabelo cortado de modo fashion. Ele não queria ter feito isso, mas, como disse, seus cachos tinham se desmanchado, ele estava com cabelo liso (sem interferência, assim, misteriosamente), então teve de fazer um corte novo. Ele olhava pouco nos olhos, falava baixo, e minha preocupação o pressionava e acuava, porque estávamos num canto e eu fazia muitas perguntas. Esse quarto tinha luz, mas lembro que o resto da casa tinha luz da rua ou de abajures, ou uma luz muito fraca e recortada. Era uma casa mais comprida do que quadrada, talvez isso tenha dispersado a dança, acho que não ficamos em roda, perecia um corredor de pessoas. Tinha muitos móveis, mas espaço pra dançar.

OBS.: Não sei o que quero dizer com "as coisas se apologizam"

Luquinhas


composição contra a velha ou para uma nova democracia

-
Video projetado ao fundo do cinturão de Choque da PM. Projeção cobrindo a parede.

Elax entra pelo lado esquerdo, deslizando sobre patins roller. Usa glitter e maiô. Figurino inspirado nos anos 70, geométrico e movente. Colorido.

Elx entra e dança ao som de http://www.youtube.com/watch?v=Tth-8wA3PdY .

(ver clip)

Em dado momento, elx cai estateladx no chão, abruptamente, lembrando um corpo que cai ao ser atingido por um tiro.

Fica no chão.
Todos acham que o corpo morreu e não voltará.

Tempo depois, o corpo se levanta e volta a dançar.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Keren na Psicologia e reunião

Keren vai à universidade!

Em busca do tempo que deveríamos perder!

Criar é construir um outro campo gravitacional, um outro espaço-tempo. 

Asterius como espaço-tempo de resistência. 

Arte como resistência a forças normatizadoras e serializantes

Reunião

Micro-roteiros de resistência

Terapia da associação livre
Livre associação de Afetos
livres - até certo ponto
Do que?
Vareia.
Falsa questão? Nem tanto. É importante saber a que resistimos. Prestar atenção, pois as forças mais fortes (extensivamente) nos atravessam todo o tempo.
Meu interesse é na criação de um espaço de resistência que a própria construção, bem como seus efeitos, seja uma fuga. Um respirar. 

Conspirar é respirar juntos. 
Cons piremos. =)

Palavras

Tem gente que consegue ficar amiga das palavras. com as quais as palavras são generosas, se entregam, aparecem aos montes, dançando. 
Eu não sou dessas pessoas.
Pelo menos ainda não (de novo). 
Minhas palavras são aquelas velhas. As palavras novas passam, mas custam a ficar...Elas não se interessam, fazer o que...
Meu negócio são as pessoas. Essas sim! Pra quem acredita em sorte, dou uma sorte danada, porque os mais interessantes são os que ficam e se dão.
...É! aqueles que estão em busca dessa energia vibrante que faz mover. 

Meu desafio agora é, então, convocar, seduzir as palavras, outras palavras, também vibrantes, para dizerem dessas pessoas ilimitáveis. 


4/06/13

Tenho que abrir espaço para os estrangeiros em mim (sei lá...)
Quanto menos me encontro com esse estado de devir, de se assumir, mais me apego às palavras, aos instantes-experiência.
Meu compromisso é com o movimento.

Será que se sustenta?

Me sinto apegada às boas palavras que li.

Ensaio com a Olívia

03/06/13

- Mas é teatro que eu quero fazer?
Não importa

- teatro - vida
Construção de um olhar potente sobre o que já está.

- Espaço entre estar aqui e fazer.
Agora não existe. Depois eu vou fazer. Depois de depois não vai mais existir.

Exposição à vida em cena.
"sempre que eu vou fazer alguma coisa importante, eu sofro. Pode ser foda, mas pode ser o que eu não quero." Frustração.

Você só morre se está vivo.
Se você está completamente vivo, você pode completamente morrer.

Ator depois da peça
Dor quando todos vão embora
Estupro.

Metáfora do parapeito - Tostsky.
Voltar todas as noites para reavivar essa possibilidade E não pular

Corpo sempre em desequilibrio em criação

Iminência.

Palavras - Norte
                  Tijolo


Cantar

Prazer
Psicodrama
Contato
Espaço
Desequilíbrio
Linguagem
Improviso
Caos na caixinha
Precipício/ Parapeito
Vida e morte
Produção / Pulsão
Concentração
Fazer problema
Jogo
O estrangeiro em mim
Sofrimento primordial
Menos carão mais carinho
Instituído e Instituinte
Na vida sem guarda chuva
Potência
Falar com
Criar outras possibilidades
Educação (é todo dia)
Encontro
Repensar
as
Estruturas

Grotowski + Regina Benevides.

Cama, 27/05/13 - 17:45

Febre (termômetro às 17:50).

O convite é a criar, a ocupar esse lugar de angústia, de mobilização, de encontro com o outro e consigo. A posposta é a observação desse movimento, dessas sensações. O pedido é pela sinceridade.  O compromisso é com a atenção.  
A promessa é a vida. 

Ensaio 20/05/13 - 2

Escrevi em papeis palavras fazendo uma poesia sobre o fazer querer ser criativo.
Antes de terminar, eles foram virando as folhas, reescrevendo, separando, formando outros sentidos.
À medida que surgia a necessidade, escrevíamos novas palavras. Fomos formando poesias. Nosso fluxo no tempo de ler as frases, pegar no chão e reformulá-las era um VP, poesia.
Ultrapassamos o chão.
É pra isso que eu estou com vocês. Para perceber como pegamos interrogações do discurso do outro, pra poder desrespeitar as palavras. Pra buscar novas palavras e rasgá-las, modificá-las, violentá-las em busca de vida.

Casa da vó, 19/05/13, 00:15

Lendo Grotowski

Pensei em fazer para amanhã um poema concreto na minha vila. Tapete de palavras.
Antes, ir lá fora em silêncio.

Comecei a ler o teatro laboratório do Grotowski, mais especificamente a parte sobre os grupo, e tem muita coisa que ressoa em mim com o projeto... Passei o dia enrolando, dias... Medo de não ter uma ideia. Fugindo delas.. Mas elas me acham em uma leitura noturna. Elas me acham e me dizem pra eu nunca confiar tanto assim nelas. Elas me dizem pra começar a brincar! O que importa é o que acontece depois.
O livro traz um pouco essa ideia, fala do poder da experimentação, de um teatro como veículo, que visa não  a apresentação, o espectador, mas o trabalho do próprio ator. Acho egoísta, mas, por agora, é exatamente isso. Ele vai trazer a cia teatral como o lugar para o ator experimentar, onde deveria poder fazer isso, pelo menos... Para que se possa ter um trabalho de pesquisa a longo prazo.


"Os ensaios não são apenas a preparação para a estréia do 
espetáculo, são para o ator um terreno em que descobrir a si mesmo, 
as suas capacidades, as possibilidades de ultrapassar os próprios limites.
Os ensaios são uma grande aventura, se se trabalha seriamente." (pg. 229)

"Como diretor, eu estava do lado daquilo que estava realmente vivo."

Penso que o trabalho do diretor é que nem o do psicólogo e o do professor... Há perguntas que perpassam esses campos igualmente exigindo uma reflexão mais profunda euma discussão mais complexa. 
Qual a melhor forma de se posicionar? Não... Como se posiciona ao lado daquilo que está realmente vivo? Como intervir?
O fim da intervenção é a alimentação da autonomia? O que significa isso? É esse o objetivo?

Me vem a conversa que eu tive com o Pedro sobre diretor-autoridade. 

Grotowski diz que quando se leva em consideração (demasiadamente) o que se tornou a indústria do espetáculo, as cias somem, cada um trabalha por si - pelo seu reconhecimento, grana etc. 
"É como cortar um bosque sem plantar árvores. Os atores não têm a possibilidade de 
encontrar algo que seja uma descoberta artística e pessoal. Não podem. 
Portanto, para enfrentar, devem explorar o que já sabem fazer e 
o que lhes deu suceso - e isso vai contra a criatividade.
Porque criatividade é antes descobrir o que não se conhece." (pg 227)

Teatro como ritual:
"Quando me refiro ao ritual, falo da sua objetividade;
quer dizer que os elementos da Ação são os instrumentos de trabalho
sobre o corpo, o coração e a cabeça dos atuantes." (pg. 232)

Será que é dar um tiro no pé fazer um espetáculo que fale de si?
Perigo








Búzios, 23:30

À noite, no limite, tenho medo do que serei com o que ainda não fiz.

Búzios, praia da tartaruga, 12/05/13

O processo começou antes mesmo que eu decidisse olhar pra isso. Acho dificil dizer quando um processo criativo começa - marco temporal que só pode ser criado a posteriori. Agora, atribuo o início desse processo de criação ao sofrimento, à sensação de falta de sentido, à angústia do desejo sem forma. Afinal, frente a esse estado, o que eu pude fazer foi movimento, uma busca por sentido, tentativa de encontro com algum acontecimento, algo que me provocasse uma mobilização subjetiva, uma transformação do meu mundo. Um deslocamento de um caos geral para um caos criativo, composto por atravessamento, rupturas, transversalidade.
A busca por uma existência arrebatadora. Sabia e dizia que me faltava criar - essa experiência de paixão, necessidade e vício, que me dominava o espírito, que aguça a sensibilidade e o diálogo com o mundo e com o outro. 
Teatro é jogo, relação, ação e corpo-presença. Buscamos uma dimensão do fazer teatro que vá até o que ele tem de mais simples para potencializar suas possibilidades de diálogo enquanto linguagem. Entendo a experiência teatral como uma negociação entre um conjunto de formas, estruturas construídas, necessárias construções de verdades, realidades da linguagem, e um campo de forças, potencializadas pelas lacunas que se assumem, que trazem a possibilidade de criação de sentido pelo interlocutor da obra/processo - que pode até ser nós mesmos. (ufa)
Eu faço teatro quando/porque preciso. É uma maneira de me reconstruir, de me surpreender. Fazendo teatro eu abro meus sentidos para outros afetos, meus olhos para outras cores, meus braços para as mesmas pessoas (vocês) e me abro para mais de mim. 
A minha trajetória no teatro me faz entender também - sentido sempre posterior - que o fazer teatro para mim é necessariamente atravessado por quem está comigo. Pra mim é uma experiência coletiva por princípio - teórico e prático. Desde o início, sempre em coletivo, tudo o teatro... Sempre o grupo sujeito, horizontal, fazendo caber e estimulando singularidades, reconfigurando subjetividades. (Arte-porco). O grupo é, por si só, um acontecimento. Um grupo teatral, olha que lindo, é um acontecimento que acontece em torno de outro acontecimento, compartilhado com mais pessoas... 
No fazer de grupo teatral nos colocamos disponíveis à recriação de nós mesmos, do grupo e do que criamos (como se pudessem ser separados). Nos dispomos a romper.  

Ensaio 6/05 - Panananá

Receita de muffin (não ficou boa)

1/2 xic. de manteiga temperatura ambiente
2/3 xic. de açúcar
3 ovos
baunilha
raspas de limão
1 1/2 xic de farinha
1 1/2 colher de chá de fermento
pitada de sal
1/4 xic de leite

Pré-aquecer o forno a 180º
Bater a manteiga e o açúcar. Botar os ovos, um a um, até clarear. Botar a baunilha e as raspas. Em outra tigela, misture a farinha, o fermento e o sal. Com a batedeira em baixa velocidade, misture metade dos secos. Adicione o leite. Adicione o resto da farinha.
12 formas.
20 min.

Panapaná


Estética nossa a posteriori. Temos uma estética porque temos uma história, mas não partimos de querer apostar em uma linguagem. Tem que ter lugar de afeto para a estética. A gente não tá querendo escrever um manifesto...

Nossa estética nasce na/da relação com o espaço agora.


O que ou sim ou sim faz com que o método leve a um resultado semelhante?


Escolha metodológica ~= escolha política ~= escolha estética

O quanto do método diz do resultado? Muito.
(os meios dão nos fins. dã. hahaha)

- Qual é a nossa estética?
FALSA QUESTÃO.
A gente não tem uma estética estática como grupo. Principalmente porque a gente acha que não é possível ter uma identidade estática. A gente não quer (nem acredita) se prender no que tem em comum as nossas produções. Ainda assim, tem coisas que a gente aposta e curte (micro-macro; revoluções moleculares; foco nas relações não personagens)

- Da universidade à cidade. Como se dá a profissionalização na cidade?
Quando nos profissionalizamos?
é quando somos autônomos?
Quando ganhamos edital?
É quando você não está na universidade?

- Gestão criativa e modo de sobrevivência em arte.

Processo cartográfico - partir de uma intuição

Peça como analisador do que é instituído, espaço de tensão, instituído/instiuinte. Espaço de forças...

Retratação

Agora tenho vontade de contar pra vocês o que eu não tenho falado... 
Tenho escrito bastante sobre tudo isso, todo esse processo e não sei porque não compartilhei... 
Me retrato agora.
(não sei se isso existe. Retrato no sentido de retratação, mas ficou bonito... Me fez pensar no retrato-fotografia-pintura. Pode parecer óbvio, mas eu descobri há pouco tempo que retrato diz de um rosto, de um corpo. Quando dizemos retrato, dizemos de uma pintura ou fotografia de alguém. Minha vó sempre falou "vamos tirar um retrato", e eu achava que era genérico, uma maneira antiga de dizer foto, que nem ela sempre disse que eu ia pro balé ao longo dos 7 anos que eu fiz sapateado, ou que continua dizendo que eu vou na escola. Mas não, de uma paisagem se diz uma fotografia. De um alguém se diz retrato. E, mais especificamente, a opção retrato da minha câmera pressupõe uma imagem parada, de uma pessoa fazendo pose. Quando eu penso no retrato-pintura, penso em uma pessoa com a cabeça inclinada 20º para algum dos lados, os pescoço esticado, os ombros bem colocados, o olhar parado - se bem que dizem que a mona-lisa te segue com o olhar.Enfim, é isso que me proponho fazer, um retrato de mim...)

domingo, 16 de junho de 2013

Terror, Desorientação e Dificuldade - Anne Bogart

Terror Desorientação e Dificuldade
Por Anne Bogart


Como uma diretora fazendo teatro na beira do século XXI, eu quero examinar o papel de certos aspectos específicos do processo de criação, incluindo o papel do embaraço, o papel da violência, o papel do estereótipo, o papel do humor, o papel da dúvida, o papel do interesse e o papel da memória cultural e da tradição. Eu começo aqui com uma das experiências humanas mais primárias e básicas: o terror. Qual é o papel do terror, da desorientação e da dificuldade no meu trabalho e no trabalho de outros artistas de teatro?

Meus primeiros encontros com teatro foram surpreendentes e me expuseram a uma arte viva com um inominável mistério e perigo. Essas experiências muito cedo tornaram difícil para mim se relacionar com alguma arte que não tivesse as raízes em alguma forma de terror. A energia das pessoas que enfrentam e incorporam o seu próprio terror é genuína, palpável e contagiosa. Em combinação com o profundo senso de jogo de artistas, o terror torna-se atraente no teatro tanto no processo criativo como na experiência vivida por uma platéia.

*
Eu nasci numa família de marinheiro e nós sempre mudávamos a cada um ou dois anos para uma nova base naval em outra parte do país ou do mundo. Minhas referências culturais foram os filmes da Disney, coquetéis e porta-aviões. Minha primeira pincelada com terror em arte aconteceu num parque em Tóquio, Japão, quando eu tinha seis anos de idade. Um enorme rosto pintado a branco surgiu saindo de um corpo imenso e multicolorido. Eu me escondi, aterrorizada, atrás da saia da minha mãe. Essa visão horrenda e bonita foi a minha primeira exposição a um ator fantasiado numa máscara. Alguns meses depois na mesma cidade, eu assisti aterrorizada a enormes altares de madeira sendo carregados por homens japoneses bêbados por ruas de Tóquio durante um dia sagrado. Os homens bêbados e os altares esporadicamente esmagavam vitrines de lojas. Eles pareciam fora de controle, fora de suas consciências e totalmente incapazes de esquecerem tudo aquilo.

Com quinze anos, quando meu pai foi postado em Newport, Rhode Island, eu vi uma primeira apresentação profissional de teatro produzida pela Trinity Repertory Company em Providence, Rhode Island. O Fundo Nacional de Doação Humanitária garantiu à companhia dinheiro suficiente para que recebesse estudantes secundaristas de todo o estado em seu teatro para verem suas peças. Eu era uma dessas estudantes e viajei à Providence num ônibus escolar grande e amarelo para assistir Macbeth. A produção me aterrorizou, desorientou e me selvagerizou. Eu não pude focar minha atenção para a ação. As bruxas saltavam inesperadamente do teto, a ação nos envolvia em grandes corridas e eu não entendia as palavras. A incomum língua falada era Shakespeare e a fantástica linguagem visual, a qual eu também desconhecia, foi meu primeiro encontro com a linguagem poética do palco, pela qual tamanho e escala eram alterados. A experiência foi assustadora mas convincente. Eu não entendi a peça, mas soube instantaneamente que gastaria o resto da minha vida na caça por aquele universo notável. Naquele dia em 1967, eu recebi a minha primeira lição como diretora: nunca falar à platéia. Ficou imediatamente claro para mim que a experiência teatral não era para que nós entendêssemos o sentido da peça ou o significado da encenação. Nós éramos convidados para um mundo único, uma arena que transformava tudo previamente estabelecido. A Trinity Company poderia ter facilmente usado o grande subsídio recebido para facilmente presentear crianças e preencher suas demandas escolares. Ao contrário, eles nos apresentaram uma visão complexa e extremamente pessoal à força, num estilo áspero. A produção e os artistas envolvidos falaram a mim diretamente de uma forma visceral e fantástica.
A maioria das experiências notáveis que eu tive no teatro me preencheu com incertezas e desorientação. Eu posso, de repente, não reconhecer um prédio que antes me era familiar ou não poderia diferenciar cima de baixo, perto de longe, grande de pequeno. Atores que eu pensei que conhecesse são inteiramente irreconhecíveis. Eu geralmente não sei se eu odeio ou se amo o que estou experienciando. Eu observo que eu estou sentada adiante, não inclinada para trás. Essas produções grandiosas são geralmente longas e difíceis; eu me sinto separada e um pouco fora da minha essência. E mesmo assim eu sou alguém modificada quando a jornada se completa.
*
Nós nascemos em meio ao terror e ao tremor. De frente ao nosso terror, ante ao incontrolável caos do universo, nós rotulamos o máximo que conseguimos com a linguagem na esperança de, por já ter nomeado um objeto antes, passar a não mais temê-lo. Essa rotulação nos dá uma sensação de segurança ao mesmo tempo em que mata o mistério daquilo rotulado, removendo a vida e o perigo para fora do que foi definido. A responsabilidade do artista é trazer a potencialidade, o mistério, o terror e o tremor de volta. James Baldwin escreveu, “A finalidade da arte é trazer à tona as perguntas que foram escondidas nas respostas”. O artista tenta a indefinição, para apresentar o momento, a palavra, o gesto como novo e cheio de um potencial incontrolável.
Eu me tornei uma diretora de teatro sabendo inconscientemente que eu teria que usar o terror pessoal da minha vida como artista. Eu tive que aprender a trabalhar em parceria e não com medo em relação a este terror. Eu me senti aliviada em descobrir que o teatro é um espaço útil para concentrar essa energia. Alheio a quase todo caos incontrolável da vida, eu pude criar um espaço de beleza e um senso de comunidade. Nos espaços mais profundos da dúvida e da dificuldade, eu encontrei coragem e inspiração nos meus colaboradores. Tornamo-nos capazes de criar uma atmosfera de boa vontade, intensidade e amor. Eu criei um refúgio para mim, para os atores e para platéias através desta metáfora que é o teatro.
Eu acredito que a função do teatro é a de nos atentar para a grande estrutura humana, de nos lembrar do nosso terror e de nossa humanidade. Nas nossas vidas cotidianas, vivemos em constantes repetições de hábitos padronizados. A maioria de nós dorme no decorrer de nossas vidas. A arte deve oferecer experiências que alterem esses padrões, acordando o que está adormecido, e nos lembrando do nosso terror original. O ser humano primeiro criou o teatro em resposta ao terror cotidiano da vida. Das pinturas nas cavernas às danças ao redor de inúmeras fogueiras, de Hedda Gabler erguendo sua pistola à desintegração de Blanche Dubois, nós criamos formas esperançosas para nossas aflições. Eu descobri que o teatro que não endereça o terror não possui energia. Nós criamos sob o medo, não a partir de um lugar seguro. De acordo com o físico Werner Heisenberg, artistas e cientistas compartilham uma abordagem em comum. Eles começam seus trabalhos com uma mão firme desejando algo específico enquanto a outra mão está sobre o desconhecido. Nós precisamos acreditar em nós mesmos para entrar nesse abismo abertos, com autoconfiança, apesar dos desequilíbrios e vulnerabilidades. Como acreditar o bastante em nós mesmos, em nossos colaboradores e nas nossas habilidades a partir do terror que vivenciamos nesse momento da partida, do início?
William Hurt, o ator, recentemente entrevistado no The New York Times, disse, “Aqueles que funcionam por medo, procuram segurança, os que funcionam pela confiança, buscam liberdade”. Essas duas possibilidades influenciam dramaticamente o processo criativo. A atmosfera do espaço de ensaio, portanto, pode estar imbuída tanto de medo como por confiança. As escolhas nos ensaios são feitas baseadas num desejo de segurança ou numa busca por liberdade? Eu estou convencida que as escolhas mais dinâmicas e emocionantes são feitas quando há confiança no processo, nos artistas e no material. O saldo atrativo em um trabalho é o amor, a confiança e um senso de humor; confiança nos colaboradores e o ato criativo em ensaio, amor pela arte e um senso de humor por sobre a tarefa impossível. Estes são elementos que trazem graça às situações em sala de ensaio e sobre um palco. Em confronto com o terror, a beleza é criada e, então, há o encanto.
Eu quero criar um teatro que é cheio de terror, beleza, amor e crença no potencial de mudança inato do ser humano. A responsabilidade começa nos sonhos. Como eu posso começar a trabalhar com esse espírito? Como eu posso trabalhar, não para subjugar, mas para abraçar o terror, a desorientação e a dificuldade?
*
Toda vez que eu começo uma nova produção eu me sinto como se estivesse fora da minha medida; sinto que eu não sei nada e não tenho noção alguma de como começar e estou certa de que alguma outra pessoa deveria estar fazendo meu trabalho, alguém mais seguro, que saiba o que precisa ser feito, que seja realmente profissional. Sinto-me desequilibrada, desconfortável e deslocada. Eu sinto algo como um pretexto. Eu geralmente encontro um caminho para transpor aquilo sobre a mesa de trabalho para a produção, onde as discussões necessárias, análises e leituras acontecem, mas sempre um momento de medo chega quando já é hora de colocar algo no palco. Como algo pode ser correto, verdadeiro ou apropriado? Eu desesperadamente tento imaginar alguma desculpa para fazer algo mais, para prorrogar um pouco mais. E quando nós começamos de fato a trabalhar no palco, tudo o que deveríamos fazer ali soa artificial, arbitrário e afetado. Eu tenho certeza que os atores pensam que eu estou louca. A todo o momento em que o dramaturgo se aproxima da sala de ensaios eu sinto que a aquilo que os atores estão fazendo não reflete nada da nossa discussão dramatúrgica. Eu me sinto pouco sofisticada e superficial. Por sorte, depois de um limite com essa dança do absurdo, eu começo a observar que os atores começam a transformar aquela encenação idiota em algo que me entusiasma e em relação ao qual eu começo a responder.
Eu falei com inúmeros diretores de teatro e percebi que eu não estou sozinha nessa sensação de estar fora do eixo no início dos ensaios. Nós todos trememos diante da impossibilidade do começo. É importante lembrar que um trabalho de direção, com qualquer artista, é intuitivo. Muitos jovens diretores cometem o grande erro de presumir que direção diz respeito a ser controlado, a dizer ao outro o que precisa ser feito, ter ideias e receber aquilo que se pediu. Eu não acredito que estas habilidades são as qualidades necessárias para um bom diretor ou para um teatro excitante. Dirigir diz respeito a sentimentos, é sobre estar numa sala com outras pessoas – com atores, com designers, com uma platéia – é sobre sentir o tempo e o espaço, sobre respiração e resposta integral àquilo que se tem em mãos, sendo capaz de mergulhar e encorajar um mergulho rumo ao desconhecido num momento chave. David Salle, o pintor, disse numa entrevista, “Eu sinto que a única coisa que realmente importa na arte e na vida é ir contra o fluxo da literalidade e da mental-literalidade para insistir e viver uma vida da imaginação. Uma pintura tem que ser a experiência ao invés de apontá-la. Eu quero ter e dar acesso ao sentimento. Esse é o mais arriscado e importante caminho para conectar a arte ao mundo – para fazê-la viva. O resto se trata apenas de eventos usuais”.
Eu sei que eu não posso me sentar quando o trabalho está acontecendo sobre o palco. Se eu sento, um enfraquecimento entra em jogo. Eu dirijo a partir de impulsos do meu corpo em resposta ao palco, ao corpo dos atores, as suas inclinações. Se eu me sento eu perco a minha espontaneidade, minha conexão comigo mesma e com o palco, com os atores. Eu tento amaciar meus olhos, ou seja, não olhar com muita rigidez ou com muito desejo, porque a visão é mais dominante e expressiva que os outros sentidos.
Quando eu estou perdida nos ensaios, quando estou bloqueada e não tenho ideia do que fazer a seguir ou como resolver um problema, eu sei que é então o momento de dar um salto. Como dirigir é intuitivo, isso envolve caminhar com tremor por sobre o que é desconhecido. É ali, naquele momento, naquele ensaio, que eu devo dizer, “Eu sei!” e começar a caminhar em direção ao palco. Durante a crise dessa caminhada, algo deve acontecer: algum insight, alguma ideia. A sensação dessa caminhada em direção ao palco, rumo aos atores, me sugere a queda para dentro de um abismo traiçoeiro. A caminhada estabelece uma crise na qual a inovação deverá acontecer e a invenção precisará transpirar. Eu invento a crise num ensaio para sair do meu próprio caminho. Eu a crio, apesar de mim mesmo e das minhas limitações e hesitações. No desequilíbrio e na queda mora o potencial de criação. Quando as coisas começam a despencar nos ensaios, a possibilidade de criação existe. O que havíamos planejado anteriormente, o que tínhamos em mente naquele momento já não é interessante. Rollo May escreveu que todos os artistas e cientistas, quando estão fazendo seu melhor trabalho, sentem como se não estivessem fazendo uma criação, eles sentem como se estivessem sendo atravessado por uma fala. Como conseguir sair de nossos próprios caminhos durante os ensaios?
A vitalidade, ou energia, em qualquer trabalho é um reflexo da coragem de um artista diante de seu próprio terror. Para mim, o aspecto essencial de um trabalho é a sua vitalidade. A criação da arte não é uma fuga da vida mas uma penetração na mesma. Eu recentemente vi uma retrospectiva dos primeiros trabalhos com dança de Martha Graham. Eu estava assombrada que trabalhos como Primitive Mysteries tem agora cinqüenta anos e ainda assim são perigosos e ariscos. Graham uma vez escreveu para Agnes De-Mille:
Tem uma vitalidade, uma força de vida, uma pressa que é traduzida através de você como ação, e porque só há uma de você durante todo o tempo, essa expressão é única. E se você bloqueia isso, isso nunca irá existir por nenhum outro meio e se perde. O mundo não vai ter isso. Não é sua obrigação determinar o quão bom possa ser; nem o quão valioso isto seja; nem como isto se relaciona com outras expressões. É sua obrigação manter isto limpo e direto, para manter o canal aberto. Você não tem que acreditar em você mesma ou no seu trabalho. Você tem que se manter aberta e atenta às urgências que a motivam.
Vitalidade na arte é resultado de articulação, energia e diferenciação. Toda ótima obra de arte é uma obra diferenciada. Nossa consciência das diferenças entre as coisas ao redor nos toca pela fonte de terror. É mais confortável sentir semelhanças, enquanto não aceitamos o terror das diferenças a fim de criar uma arte vital. A terrível verdade é que nem duas pessoas são iguais, nem dois flocos de neve são iguais, nem sequer dois momentos são iguais. Os físicos agora dizem que nada nos toca, nada no universo tem contato; há apenas movimento e mudança. Isso é uma noção apavorante dada a nossa tentativa em fazer contato com o outro. A habilidade de ver, experienciar e articular as diferenças entre as coisas é a diferenciação. Ótimas obras artísticas incorporam essa noção de diferenciação sob variados modos. Uma pintura excepcional é aquela na qual, por exemplo, uma cor é altamente e visivelmente diferenciada de outra, pintura na qual nós vemos as diferenças em texturas, formas, relações espaciais. O que fez Glenn Gould uma musicista brilhante foi a sua abertura à alta diferenciação musical, que acabou por criar a intensidade extática de sua produção. No melhor teatro, momentos são altamente diferenciados. A habilidade do ator reside na diferenciação de um momento para o outro. Um grande ator parece perigoso, imprevisível, cheio de vida e diferenciação.
*
Nós não somente precisamos usar nosso terror da diferenciação como também o nosso terror do conflito. Os americanos encontram-se aborrecidos com a doença da concordância. No teatro, nós geralmente presumimos que colaboração significa estar de acordo. Eu acredito que concordâncias demais constroem produções sem vitalidade, sem dialética, sem verdade. Acordos sem reflexo mortificam a energia de um ensaio. Eu não acredito que colaboração signifique fazer mecanicamente o que o diretor dita. Sem resistência não há fogo. Os alemães têm uma palavra útil para a qual não há uma equivalente apropriada em inglês: auseinandersetzung. A palavra, literalmente “colocar uma parte separada da outra”, é geralmente traduzida para o inglês como “argumento”, uma palavra com conotações geralmente negativas. Quanto mais feliz eu fosse estar num ambiente de ensaio agradável e despreocupado, mais ainda meu melhor trabalho se derivaria da auseinandersetzung, que significa para mim que para criar nós devemos colocar uma coisa ao lado da outra. Isso não significa, “Não, eu não gosto da sua abordagem, ou de suas ideias”. Não significa, “Não, eu não vou fazer o que você está me pedindo para fazer”. Significa, “Sim, eu vou incluir a sua sugestão, mas eu virei ao encontro dela por outro ângulo e somarei estas novas noções”. Isto significa que nós atacamos um ao outro, que nós vamos nos chocar; isso significa que nós podemos argumentar, duvidar uns dos outros, oferecer alternativas. Significa que eu posso me sentir tola ou despreparada. Que ao invés de me cegar enchendo-me de instruções, nós examinaremos escolhas no calor dos ensaios, através da repetição, do teste e pelo erro. Eu percebi que os artistas de teatro alemães tendem a trabalhar muito com auseinandersetzung, que começa débil mas pode criar violentas produções. Os americanos são muito concernentes aos acordos, que podem criar uma arte sem profundidade.
As palavras neste ensaio são mais fáceis de serem escritas do que praticadas em ensaios. Em momentos de confrontação com terror, desorientação e dificuldade, a maioria de nós quer dizer que já é noite e ir para casa. Esses pensamentos são elaborados como reflexos e noções de ajuda que nos dão outras perspectivas, para nos ajudar a trabalhar com mais fé e coragem. Eu gostaria de terminar com uma citação de Brian Swimme:
De que forma podemos expressar sentimentos mas justamente pelo aprofundamento neles? Como podemos capturar o mistério da angústia sem que nos tornemos alguém angustiado? Shakespeare viveu sua vida, atordoado pela sua majestade, e em sua escrita tentou apreender o que ele sentia, tentou capturar essa paixão de forma simbólica. Feito isca pela intensidade de sua vida, ele representou esta intensidade em linguagem. E por quê? Porque a beleza o atordoava. Porque a alma não pode confinar tais sentimentos.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ensaio 10/06

Morro de medo de fazer teatro de rua
                                                na rua
Medo de não ser vista
Tão grande que disfarço, me diluo na plateia
E vou embora.



Dá medo de falar. Daquilo que não está construído e vai se construir comigo. E eu sei disso. Que vai. Que tem. Dá medo de ter medo na hora. Se está sendo bom, medo de não ser mais no minuto seguinte. A queda é grande. Medo de estar sendo ruim e eu não ter crédito - não ter feito coisas boas suficientes que anulem a ruim nessa economia das críticas.

O que você achou? Estupro. Depois do filme, vestir as camadas ao se deparar com tudo de externo que continuou construído. O mundo foi aquilo que apareceu junto com o filme, do encontro entre eu e o que eu passava a ser.

Criar é ancorar quando se habita o transitório. Como construir alças pesadas, que esbarram no chão. Uma organização.
Crio porque quero ser amada. Quero criar teias, redes de intensidade que capturem, que possam entrar, a-tra-ves-sar (imagem, não conceito) densidades, até chegar na resistência.
Crio porque quero ir para fora de mim mesma. Quero resistir proliferar reproduzir continuar viva. Continuar sendo vida.
Quero continuar vivendo Hilda em vocês.

Bom ou ruim é uma falsa questão. Achata. Chatiiinha essa questão...
A busca é pela vida. Pela ressonância.
Curiosidade sobre o que ressoa.
Ressoou?
Como te soa?
A palavra, o gesto, já são ressonâncias...
A gota de tinta também.

Por isso o exercício. Pra saber que palavras ressoam e como do silêncio de cada um. Dos nossos medos.






Medo

Estou apavorada
Respiração curta
Peso no peito Mundo no peito
Uma corrente de energia passa pelo meu corpo.
In controlável
A única forma de fazer parar... A
ú n i c a saída
Rápido!
E as palavras são cuspidas da boca pra fora
pros ouvidos
Não!
só que sim
Não me reconheço, mas pelo menos... Parou
Quieto
O nó não, ainda lá
O querer continua
Não posso Não quero
Mas quero
E destruo
Não adianta
Boba...
Se você acredita, o medo te convence a se deixar morrer
um pouquinho
por vez
(argumento tem)
O medo se vence no suspiro
Um rompimento sutil
Um entregar-se pela garganta.

09/06/2013

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Stela do Patrocínio, poemas que Bella curtiu

Não sou eu que gosto de nascer
Eles é que me botam para nascer todo dia
E sempre que eu morro me ressuscitam
Me encarnam me desencarnam me reencarnam
Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver
Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto
Ou pra cabeça deles e pro corpo deles 

-

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu era ar, espaço vazio, tempo
E gases puro, assim, ó, espaço vazio, ó
Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Fazer céu da boca, fazer falatório
Fazer músculo, fazer dente

Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Fazer cabeça, pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio
Não tinha onde tirar nada disso
Eu era espaço vazio puro


-

Olha quantos estão comigo
Estão sozinhos
Estão fingindo que estão sozinhos
Para poder estar comigo

Quatro tapas


Como se eu fosse alguém
Como se nós fôssemos alguéns
Como se a vida fosse além
Como
E como se você fosse um sonho
Que vem
Se realizando na beira do caminho, da porta, da cama
Cada segundo mais perto
E mais longe
Porque se adia
Porque o sonho tem o tempo que o corpo quer
Ou quase: quer e não sabe
Ou sabe e não quer

Lucas Nascimento - 26/12/2010
(furtado por mim)

domingo, 2 de junho de 2013

Uma linha invisível

uma linha invisível  - João Batista Ferreira

a palavra é corpo vivo 
do instante que se foi agora
a palavra é resto da experiência
a palavra é a breve encarnação do instante-já
a palavra é a tradução 
do que mal sei
a frágil ponte-passagem 
que na fração 
de um momento se entranha
no tecido do mundo
a palavra é uma linha
invisível sobre o abismo
a palavra é o traçado
impossível entre o que não sabemos
e aquilo que pensamos ser
a palavra estará para sempre
morta se teu olhar não a encontrar
a palavra estradafora
persegue a sombra
do que fui-estou-sendo
a palavra inventada
faz nascer o que não existia
a palavra mal toca a escuridão
(a palavra muda
a tristeza errada-certa
no rosto da mulher encurvada)
a palavra não sabe de si
mas sua ignorância me faz sentido
a palavra obtusa
perfura o opaco tecido
das horas planas
palavra que simescreve
mescapa entrededos no deserto
da palma da mão
palavra viva
atravessada pela experiência
intraduzível do mundo

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Estado criativo

Um homem se equilibra no parapeito da janela do andar mais alto. Descalço. Ele olha para baixo. Medo ou o fascínio da queda? Não importa. A possibilidade de pular. A vertigem.

O “estar em criação” como pulsão de vida, como modo de se estar presente, de estar vivo, de atuar no mundo. Pensar nisto como uma opção de existência. Escolha. Escolha existencial, escolha afetiva, escolha de cidadania. Viver como ato de provocar possibilidades. Viver sendo uma possibilidade.

Estar em estado criativo como forma de lutar contra apatia que, filha da puta que é, às vezes nos faz acreditar que ela é uma espécie de conclusão das coisas.

Estar em estado criativo para não estar em estado de conclusão.

A cada noite, subir no parapeito da janela para avivar estado de possibilidade.

E não pular.

A cada noite, subir no parapeito da janela para brincar com o estado de não conclusão das coisas.

Micro-roteiros para entrar em estado criativo.

Vocês sentem medo quando estão em cena? Os segundos intermináveis antes do espetáculo começar...

Vocês se sentem donos do mundo quando estão em cena? Estar em cena podendo tudo. Aqui, eu falo. E respondo. Aqui eu estou sendo a todo instante.

Aqui, neste palco,  eu sou eu porque estou sempre inconcluso, e é o buscar a conclusão que nunca vai chegar que me deixa vivo. Por isso que há qualquer coisa de agressivo e violento no término de uma apresentação. Remou-se muito durante uma hora e pouco e agora não há resposta. Corpos estuprados, corpos frágeis.

Há uma beleza generosa e humilde num ator indo para casa depois de uma apresentação. Uma sabedoria de quem observa e percebe que não entende nada. E sorri, em sua mais completa ignorância.

Gargalhar da ignorância das coisas é importante.

Gargalhar com o outro da ignorância das coisas é talvez mais importante ainda. É amor. E o amor é uma forma de sabedoria.

Ou seja: gargalhar da própria ignorância é começar a ser sábio.

Saber que se é ignorante é sair da ignorância?

Suspeito que sejam as mesmas coisas.

Mas que importa isso tudo? Eu te amo...

Olá, você. Eu te amo. É simples.

Observar o mundo.
(O mundo é muito doido)

Exposição.

Vocês se sentem expostos quando estão em cena?

Micro-roteiros para possibilitar a exposição. Até onde eu quero me expor? Fazer arte é sempre se expor?

Amor é exposição?

Um misto de tesão, medo, vertigem. A possibilidade da queda.

Brincar de impossibilidades. Brincar de deus.

O estado criativo é promover o estado de possibilidades e de impossibilidades. Acreditar em impossibilidades. Orgasmo e observação e se recolher e voltar e se estimular e olhar e cheirar e gozar e observar e se recolher e voltar e se estimular e buscar o que me estimula, e saber o que me estimula... e voltar.... processos delicados.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

a musica da bella

http://www.youtube.com/watch?v=WWfseMcAUZY

a última coca-cola do deserto

Começo. Eu nunca teria virado aquelas folhas. Eu nunca teria, sozinha, descoberto os animais simpáticos. Talvez em 20 anos, talvez em pouco menos ou mais.
Não era pra ser nada. e ainda assim foi tudo. sempre será.

nada -> anagrama:   anda

Andamos.
Seguiu-se. Surgiu lontra, elefante, telefonema.
 Imagine daqui há um ano, onde vamos estar. Até aranha marinha entrará em nosso vocabulário.

Além de todos os artifícios estéticos, as pequenas maquinas de sonhos em formato de espetáculo, as grandes realidades rizomáticas que se expremem para caberem em uma hora e vinte de palco e em cinco meses de processo, além de todas essas maravilhas, devaneios, degustações, o maior dos artifícios que eu tenho são vocês.

Olhos emprestados, corações emprestados, costas para onde voltar: emprestradas.
Idéais revolucionárias, sensibilidades cotidianas, pequenas coragens.

Obrigado.

Meu corpo não é superficie suficiente para meu desejo e minha falta e por isso:  o movimento.

Ágeis comunicadores, enfermeiros da alma, últimas coca-colas do deserto: são vocês, pra mim.

  





Escrita Cartografica ensiao 1



eu sonho, e vocês?
Faz aí também...
o carro é a não lontra. A canoa é a não árvore.

-Eu sonho, e vocês?
-Eu disfarço sonho, e vocês?
-Eu não.
(cisão)
Paciência.

Eu querendo ser pedra. quenrendo fazer voce me ver. me fazer você me fazendo.
AGORA eu faço som de elefante. Samba lontra ou nada.

Eu detesto processo mas faço. é sério. eu protesto
samba agora elefante .

A gente, é redundante...  Eu e vocês, é redundante...
Escuta fascínora!!

Detesto eu (cegonha)  E vocês, me destestam? 
Disfarço sonho agora
Agora desfaço ontem

Sonho brincadeira, é sério.
Você é sério. Brincadeira...

Eu processo vocês. PAN.

e Eu deteste a gente. É sério.
Som de elefante. Ontem eu faço agora.

Sonho saindo pela fresta da janela.
Escapoliu, fascínora!!

Faco telefonema. Shhhh.
Uma lontra! Shhhh! (brincaderia)
 Sonho. shhhh

Você é redundante. Eu escuto. Paciencia.
Fazendo você me fazer, samba e <3.

Eu faço samba e <3.

Rasgo tudo querendo ser sonho.
Sonho ser você. 


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ensaio 1 - 20/05/13


Proposta: 




Começamos nos esticando um pouco juntos. Descemos todos em roda, de braços dados, depois subimos de novo e pendemos para dentro, com as mãos encostadas. Acho esse exercício muito bonito estéticamente... E depois? A gente sente. (errei, mas gostei). A gente senta. E se estica mais. Ai que saudade do Alexander. Fazemos um pouco de Alexander, mas fazendo uma brincadeira de percepção do espaço - todo mundo olharia, que nem sempre, o espaço ao redor, renovando o olhar. Depois todos fecharíamos os olhos e um perguntariamos um para o outro detalhes do espaço. (o meu teto tem forma de P, mas ao contrário). Levantamos e fizemos aquela brincadeira do nó. Fomos lembrando à medida que fomos fazendo, então acabamos fazendo de jeitos diferentes. Eu disse que o meu professor tinha feito isso em sala e que foi um analisador muito bom para evidenciar um não-grupo (Na verdade eu não sei, não fui nessa aula, mas me contaram). Só pra constar - da forma que a gente fez, mudando sempre, dialogando sempre um com o outro, ajudando um ao outro... Bem, acho que desde já ficou bem claro que somos/estávamos/estamos sendo um grupo. 
Lucas vem? Nina la?
Começamos.

Pedro, bota a calça.
Me sigam. 

Vamos à vila, na parte mais perto da grade, da rua. 
Eu
(não sei o que escrever. 
Paciência.
(o que eu agora?

Eu
Faço
Samba e S2
Eu
Faço
Sonho
Refaço...
            Tento de tudo
Eu pego
Eu rasgo
Disfarço
Me rasgo toda
Me querendo
            Fazer
Fazendo
Querer
Fazendo você
Me fazer
Querer
            Me
            Querer
            Ver

Querendo ser

Você
(pan)
(brincadeira)

Antes que eu pudesse pensar no depois, ele já se apresentava. 
Ju e Pe estavam já virando as folhas, que tinham fotos de animais atrás. 
Estavam dando sentido e expressividade para essas imagens que apareciam entre as palavras. E fazendo outras palavras. Dobramos, rasgamos, formulamos palavras. Usamos palavras. Violência, rompimento necessário para criarmos outros discursos.
Estávamos nos comunicando também espacial e temporalmente. Nossos movimentos estavam conectados como em um exercício de View Point. Estávamos criando assim também... Me senti dialogando com vocês o tempo todo, sem abrir a boca. 
Conversando sobre o ensaio depois, percebi como é valioso esse "desrespeito" às palavras. Diz um pouco da relação que estabelecemos com a academia, com o criar. Estamos muito acostumados com o movimento de dar forma - às ideias, que devem ser claras, colocadas em palavras, formatadas no papel - e, às vezes, precisamos desestruturar essas formas para extrair delas força. Força essa que permite a composição de outras formas. E etc. 
Fomos, horas a fio, construindo diálogos, ideias, afetos, mil sentidos que mudavam a cada segundo. Em dado momento outra pessoa ia lá e trazia uma nova palavra. (ai, como são importantes as novas palavras...). Lontra. Detesto. A gente. Shh. 

Legenda: A gente faz sonho e vocês?

                                                    "Agora disfaço ontem"

"Sonho"


"Eu queria ser (pedra) Fazendo você me fazer querer me querer ver"



Depois, tentamos escrever o que havia ficado.

"Querendo ver você me ver sério
Eu, Quéris?
Querendo ser (pedras)
Som de paciência
Detesto processo faço.
Eu me rasgo querendo você. 
Queris? Eu faço (pan).
Agora disfaço ontem. 
Querendo ser (coração)
Samba lontra ou nada faço.
Faço brincadeiras. É sério. 
Shhh. Som de elefante.
Vocês me detestam?
Eu e vocês.
Ontem um telefonema. Shhh. Som de elefante.
Não é uma lontra (preso no carro.)
Quererndo ser, escuto?
A gente faz sonho e vocês?
Protesto disfarço fascínora
Faço processo ou nada escuto. "

"Eu escuto som de elefante.
Uma lontra, me sigam.,
Samba sério...
Quéris pan? Eu faço.
Isso não é uma lontra.
Eu (coração) vocês. Brincadeira.
Eu faço lontra. É sério.
Detesto processo. Eu faço. Paciência.
Um telefone (som de elefante)
FAzemos shh. queremos som de elefante.
Detesto você. Paciência. 
Eu sonho. E vocês?
Disfarço uma brincadeira.
Me rasgo toda querendo me fazer lontra.
Eu sonho. É sério?"

" Eu faço a gente fazendo eu.
Eu e vocês é redundante.
Eu queria ser sonho. E vocês?
Eu queria ser uma lontra mas disfarço. 
A gente faz brincadeira sério.
Você?
Eu?
Eu me rasgo toda me querendo fazer brincadeira/sonho. 
Eu queria fazer samba sério. 
Eu queria (coração). 
Me rasgo toda me querendo (coração)."



terça-feira, 14 de maio de 2013

Nasce o poeta

 - Ferreira Gullar

8

No princípio
era o verso
alheio

Disperso
em meio
às vozes
e às coisas
o poeta dorme
sem se saber

ignora o poema
não tem nada a dizer

o poema péssimo
revela
ao ser lido
que há no leitor
um poeta adormecido

o poema péssimo
(por péssimo) pode
ser comovido

inda que errado
em sua emoção
inda que truncado
em sua dicção

ele guarda um barulho
de quintal, de sala,
de vento ou de chuva
de gente que fala:
ivo viu a uva

o poeta ao ler
o péssimo poema
nele não se vâ

na palavra ou no verso
onde não se lê -
se lê ao reverso
em seu vir a ser

e assim vira ser

já que a escrita cria
o escrevinhador,
soletra na pétala seu nome: flor

o mundo que é fácil
de ver ou pegar
é dificil de ter:
difícil falar
a fala que o dá

e a fala vazia
nem é bom falar
se a fala não cria
é melhor calar

ou - à revelia
do melhor falar -
falar: que a poesia
é saber falhar


10

a boca não fala
o ser (que está fora
de toda linguagem):
só o ser diz o ser

a folha diz folha
sem nada dizer

o poema não diz
o que a coisa é

mas diz outra coisa
que a coisa quer ser

pois nada se basta
contente de si

o poeta empresta
às coisas
sua voz - o dialeto -

e o mundo
no poema
se sonha
completo.

Início

25/04/13

Eu saí da faculdade sentindo mariposas crescendo no estômago. Achei melhor não contar pra ninguém ainda, está muito recente, preciso digerir a ideia... “Alô? Oi amor, confirma a reunião? Ai tenho uma coisa ótima pra contar./Conta!!/Tá.” Como sempre, o afeto falou mais alto. A proposta foi recebida com calor. Acharam lindo e já aumentaram a proposta – o que seria uma investigação coletiva virou uma criação coletiva. Antes que eu pudesse ter digerido o primeiro rumo, estávamos caminhando por outro, mais profundo: a gente pode fazer disto um processo teatral! Tipo uma meta-qualquer-coisa. Eu sou seu assistente.
Saí da reunião emocionada, sentindo que o que eu estava propondo observar já estava acontecendo, bem ali na minha frente. Não bastava pensarmos. Nunca basta. Ainda bem.
Não sei como vai ser isso. Mas sei que é mais uma declaração de amor.