Um homem se equilibra no parapeito da janela do andar mais
alto. Descalço. Ele olha para baixo. Medo ou o fascínio da queda? Não importa.
A possibilidade de pular. A vertigem.
O “estar em criação” como pulsão de vida, como modo de se
estar presente, de estar vivo, de atuar no mundo. Pensar nisto como uma opção
de existência. Escolha. Escolha existencial, escolha afetiva, escolha de
cidadania. Viver como ato de provocar possibilidades. Viver sendo uma
possibilidade.
Estar em estado criativo como forma de lutar contra apatia
que, filha da puta que é, às vezes nos faz acreditar que ela é uma espécie de
conclusão das coisas.
Estar em estado criativo para não estar em estado de
conclusão.
A cada noite, subir no parapeito da janela para avivar
estado de possibilidade.
E não pular.
A cada noite, subir no parapeito da janela para brincar com o estado de não conclusão das coisas.
Micro-roteiros para entrar em estado criativo.
Vocês sentem medo quando estão em cena? Os segundos intermináveis antes do espetáculo começar...
Vocês se sentem donos do mundo quando estão em cena? Estar em cena podendo tudo. Aqui, eu falo. E respondo. Aqui eu estou sendo a todo instante.
Aqui, neste palco, eu sou eu porque estou sempre inconcluso, e é o buscar a conclusão que nunca vai chegar que me deixa vivo. Por isso que há qualquer coisa de agressivo e violento no término de uma apresentação. Remou-se muito durante uma hora e pouco e agora não há resposta. Corpos estuprados, corpos frágeis.
Há uma beleza generosa e humilde num ator indo para casa depois de uma apresentação. Uma sabedoria de quem observa e percebe que não entende nada. E sorri, em sua mais completa ignorância.
Gargalhar da ignorância das coisas é importante.
Gargalhar com o outro da ignorância das coisas é talvez mais importante ainda. É amor. E o amor é uma forma de sabedoria.
Ou seja: gargalhar da própria ignorância é começar a ser sábio.
Saber que se é ignorante é sair da ignorância?
Suspeito que sejam as mesmas coisas.
Mas que importa isso tudo? Eu te amo...
Olá, você. Eu te amo. É simples.
Observar o mundo.
(O mundo é muito doido)
Exposição.
Vocês se sentem expostos quando estão em cena?
Micro-roteiros para possibilitar a exposição. Até onde eu quero me expor? Fazer arte é sempre se expor?
Amor é exposição?
Um misto de tesão, medo, vertigem. A possibilidade da queda.
Brincar de impossibilidades. Brincar de deus.
O estado criativo é promover o estado de possibilidades e de impossibilidades. Acreditar em impossibilidades. Orgasmo e observação e se recolher e voltar e se estimular e olhar e cheirar e gozar e observar e se recolher e voltar e se estimular e buscar o que me estimula, e saber o que me estimula... e voltar.... processos delicados.