sexta-feira, 31 de maio de 2013

Estado criativo

Um homem se equilibra no parapeito da janela do andar mais alto. Descalço. Ele olha para baixo. Medo ou o fascínio da queda? Não importa. A possibilidade de pular. A vertigem.

O “estar em criação” como pulsão de vida, como modo de se estar presente, de estar vivo, de atuar no mundo. Pensar nisto como uma opção de existência. Escolha. Escolha existencial, escolha afetiva, escolha de cidadania. Viver como ato de provocar possibilidades. Viver sendo uma possibilidade.

Estar em estado criativo como forma de lutar contra apatia que, filha da puta que é, às vezes nos faz acreditar que ela é uma espécie de conclusão das coisas.

Estar em estado criativo para não estar em estado de conclusão.

A cada noite, subir no parapeito da janela para avivar estado de possibilidade.

E não pular.

A cada noite, subir no parapeito da janela para brincar com o estado de não conclusão das coisas.

Micro-roteiros para entrar em estado criativo.

Vocês sentem medo quando estão em cena? Os segundos intermináveis antes do espetáculo começar...

Vocês se sentem donos do mundo quando estão em cena? Estar em cena podendo tudo. Aqui, eu falo. E respondo. Aqui eu estou sendo a todo instante.

Aqui, neste palco,  eu sou eu porque estou sempre inconcluso, e é o buscar a conclusão que nunca vai chegar que me deixa vivo. Por isso que há qualquer coisa de agressivo e violento no término de uma apresentação. Remou-se muito durante uma hora e pouco e agora não há resposta. Corpos estuprados, corpos frágeis.

Há uma beleza generosa e humilde num ator indo para casa depois de uma apresentação. Uma sabedoria de quem observa e percebe que não entende nada. E sorri, em sua mais completa ignorância.

Gargalhar da ignorância das coisas é importante.

Gargalhar com o outro da ignorância das coisas é talvez mais importante ainda. É amor. E o amor é uma forma de sabedoria.

Ou seja: gargalhar da própria ignorância é começar a ser sábio.

Saber que se é ignorante é sair da ignorância?

Suspeito que sejam as mesmas coisas.

Mas que importa isso tudo? Eu te amo...

Olá, você. Eu te amo. É simples.

Observar o mundo.
(O mundo é muito doido)

Exposição.

Vocês se sentem expostos quando estão em cena?

Micro-roteiros para possibilitar a exposição. Até onde eu quero me expor? Fazer arte é sempre se expor?

Amor é exposição?

Um misto de tesão, medo, vertigem. A possibilidade da queda.

Brincar de impossibilidades. Brincar de deus.

O estado criativo é promover o estado de possibilidades e de impossibilidades. Acreditar em impossibilidades. Orgasmo e observação e se recolher e voltar e se estimular e olhar e cheirar e gozar e observar e se recolher e voltar e se estimular e buscar o que me estimula, e saber o que me estimula... e voltar.... processos delicados.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

a musica da bella

http://www.youtube.com/watch?v=WWfseMcAUZY

a última coca-cola do deserto

Começo. Eu nunca teria virado aquelas folhas. Eu nunca teria, sozinha, descoberto os animais simpáticos. Talvez em 20 anos, talvez em pouco menos ou mais.
Não era pra ser nada. e ainda assim foi tudo. sempre será.

nada -> anagrama:   anda

Andamos.
Seguiu-se. Surgiu lontra, elefante, telefonema.
 Imagine daqui há um ano, onde vamos estar. Até aranha marinha entrará em nosso vocabulário.

Além de todos os artifícios estéticos, as pequenas maquinas de sonhos em formato de espetáculo, as grandes realidades rizomáticas que se expremem para caberem em uma hora e vinte de palco e em cinco meses de processo, além de todas essas maravilhas, devaneios, degustações, o maior dos artifícios que eu tenho são vocês.

Olhos emprestados, corações emprestados, costas para onde voltar: emprestradas.
Idéais revolucionárias, sensibilidades cotidianas, pequenas coragens.

Obrigado.

Meu corpo não é superficie suficiente para meu desejo e minha falta e por isso:  o movimento.

Ágeis comunicadores, enfermeiros da alma, últimas coca-colas do deserto: são vocês, pra mim.

  





Escrita Cartografica ensiao 1



eu sonho, e vocês?
Faz aí também...
o carro é a não lontra. A canoa é a não árvore.

-Eu sonho, e vocês?
-Eu disfarço sonho, e vocês?
-Eu não.
(cisão)
Paciência.

Eu querendo ser pedra. quenrendo fazer voce me ver. me fazer você me fazendo.
AGORA eu faço som de elefante. Samba lontra ou nada.

Eu detesto processo mas faço. é sério. eu protesto
samba agora elefante .

A gente, é redundante...  Eu e vocês, é redundante...
Escuta fascínora!!

Detesto eu (cegonha)  E vocês, me destestam? 
Disfarço sonho agora
Agora desfaço ontem

Sonho brincadeira, é sério.
Você é sério. Brincadeira...

Eu processo vocês. PAN.

e Eu deteste a gente. É sério.
Som de elefante. Ontem eu faço agora.

Sonho saindo pela fresta da janela.
Escapoliu, fascínora!!

Faco telefonema. Shhhh.
Uma lontra! Shhhh! (brincaderia)
 Sonho. shhhh

Você é redundante. Eu escuto. Paciencia.
Fazendo você me fazer, samba e <3.

Eu faço samba e <3.

Rasgo tudo querendo ser sonho.
Sonho ser você. 


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ensaio 1 - 20/05/13


Proposta: 




Começamos nos esticando um pouco juntos. Descemos todos em roda, de braços dados, depois subimos de novo e pendemos para dentro, com as mãos encostadas. Acho esse exercício muito bonito estéticamente... E depois? A gente sente. (errei, mas gostei). A gente senta. E se estica mais. Ai que saudade do Alexander. Fazemos um pouco de Alexander, mas fazendo uma brincadeira de percepção do espaço - todo mundo olharia, que nem sempre, o espaço ao redor, renovando o olhar. Depois todos fecharíamos os olhos e um perguntariamos um para o outro detalhes do espaço. (o meu teto tem forma de P, mas ao contrário). Levantamos e fizemos aquela brincadeira do nó. Fomos lembrando à medida que fomos fazendo, então acabamos fazendo de jeitos diferentes. Eu disse que o meu professor tinha feito isso em sala e que foi um analisador muito bom para evidenciar um não-grupo (Na verdade eu não sei, não fui nessa aula, mas me contaram). Só pra constar - da forma que a gente fez, mudando sempre, dialogando sempre um com o outro, ajudando um ao outro... Bem, acho que desde já ficou bem claro que somos/estávamos/estamos sendo um grupo. 
Lucas vem? Nina la?
Começamos.

Pedro, bota a calça.
Me sigam. 

Vamos à vila, na parte mais perto da grade, da rua. 
Eu
(não sei o que escrever. 
Paciência.
(o que eu agora?

Eu
Faço
Samba e S2
Eu
Faço
Sonho
Refaço...
            Tento de tudo
Eu pego
Eu rasgo
Disfarço
Me rasgo toda
Me querendo
            Fazer
Fazendo
Querer
Fazendo você
Me fazer
Querer
            Me
            Querer
            Ver

Querendo ser

Você
(pan)
(brincadeira)

Antes que eu pudesse pensar no depois, ele já se apresentava. 
Ju e Pe estavam já virando as folhas, que tinham fotos de animais atrás. 
Estavam dando sentido e expressividade para essas imagens que apareciam entre as palavras. E fazendo outras palavras. Dobramos, rasgamos, formulamos palavras. Usamos palavras. Violência, rompimento necessário para criarmos outros discursos.
Estávamos nos comunicando também espacial e temporalmente. Nossos movimentos estavam conectados como em um exercício de View Point. Estávamos criando assim também... Me senti dialogando com vocês o tempo todo, sem abrir a boca. 
Conversando sobre o ensaio depois, percebi como é valioso esse "desrespeito" às palavras. Diz um pouco da relação que estabelecemos com a academia, com o criar. Estamos muito acostumados com o movimento de dar forma - às ideias, que devem ser claras, colocadas em palavras, formatadas no papel - e, às vezes, precisamos desestruturar essas formas para extrair delas força. Força essa que permite a composição de outras formas. E etc. 
Fomos, horas a fio, construindo diálogos, ideias, afetos, mil sentidos que mudavam a cada segundo. Em dado momento outra pessoa ia lá e trazia uma nova palavra. (ai, como são importantes as novas palavras...). Lontra. Detesto. A gente. Shh. 

Legenda: A gente faz sonho e vocês?

                                                    "Agora disfaço ontem"

"Sonho"


"Eu queria ser (pedra) Fazendo você me fazer querer me querer ver"



Depois, tentamos escrever o que havia ficado.

"Querendo ver você me ver sério
Eu, Quéris?
Querendo ser (pedras)
Som de paciência
Detesto processo faço.
Eu me rasgo querendo você. 
Queris? Eu faço (pan).
Agora disfaço ontem. 
Querendo ser (coração)
Samba lontra ou nada faço.
Faço brincadeiras. É sério. 
Shhh. Som de elefante.
Vocês me detestam?
Eu e vocês.
Ontem um telefonema. Shhh. Som de elefante.
Não é uma lontra (preso no carro.)
Quererndo ser, escuto?
A gente faz sonho e vocês?
Protesto disfarço fascínora
Faço processo ou nada escuto. "

"Eu escuto som de elefante.
Uma lontra, me sigam.,
Samba sério...
Quéris pan? Eu faço.
Isso não é uma lontra.
Eu (coração) vocês. Brincadeira.
Eu faço lontra. É sério.
Detesto processo. Eu faço. Paciência.
Um telefone (som de elefante)
FAzemos shh. queremos som de elefante.
Detesto você. Paciência. 
Eu sonho. E vocês?
Disfarço uma brincadeira.
Me rasgo toda querendo me fazer lontra.
Eu sonho. É sério?"

" Eu faço a gente fazendo eu.
Eu e vocês é redundante.
Eu queria ser sonho. E vocês?
Eu queria ser uma lontra mas disfarço. 
A gente faz brincadeira sério.
Você?
Eu?
Eu me rasgo toda me querendo fazer brincadeira/sonho. 
Eu queria fazer samba sério. 
Eu queria (coração). 
Me rasgo toda me querendo (coração)."



terça-feira, 14 de maio de 2013

Nasce o poeta

 - Ferreira Gullar

8

No princípio
era o verso
alheio

Disperso
em meio
às vozes
e às coisas
o poeta dorme
sem se saber

ignora o poema
não tem nada a dizer

o poema péssimo
revela
ao ser lido
que há no leitor
um poeta adormecido

o poema péssimo
(por péssimo) pode
ser comovido

inda que errado
em sua emoção
inda que truncado
em sua dicção

ele guarda um barulho
de quintal, de sala,
de vento ou de chuva
de gente que fala:
ivo viu a uva

o poeta ao ler
o péssimo poema
nele não se vâ

na palavra ou no verso
onde não se lê -
se lê ao reverso
em seu vir a ser

e assim vira ser

já que a escrita cria
o escrevinhador,
soletra na pétala seu nome: flor

o mundo que é fácil
de ver ou pegar
é dificil de ter:
difícil falar
a fala que o dá

e a fala vazia
nem é bom falar
se a fala não cria
é melhor calar

ou - à revelia
do melhor falar -
falar: que a poesia
é saber falhar


10

a boca não fala
o ser (que está fora
de toda linguagem):
só o ser diz o ser

a folha diz folha
sem nada dizer

o poema não diz
o que a coisa é

mas diz outra coisa
que a coisa quer ser

pois nada se basta
contente de si

o poeta empresta
às coisas
sua voz - o dialeto -

e o mundo
no poema
se sonha
completo.

Início

25/04/13

Eu saí da faculdade sentindo mariposas crescendo no estômago. Achei melhor não contar pra ninguém ainda, está muito recente, preciso digerir a ideia... “Alô? Oi amor, confirma a reunião? Ai tenho uma coisa ótima pra contar./Conta!!/Tá.” Como sempre, o afeto falou mais alto. A proposta foi recebida com calor. Acharam lindo e já aumentaram a proposta – o que seria uma investigação coletiva virou uma criação coletiva. Antes que eu pudesse ter digerido o primeiro rumo, estávamos caminhando por outro, mais profundo: a gente pode fazer disto um processo teatral! Tipo uma meta-qualquer-coisa. Eu sou seu assistente.
Saí da reunião emocionada, sentindo que o que eu estava propondo observar já estava acontecendo, bem ali na minha frente. Não bastava pensarmos. Nunca basta. Ainda bem.
Não sei como vai ser isso. Mas sei que é mais uma declaração de amor.