- Ferreira Gullar
8
No princípio
era o verso
alheio
Disperso
em meio
às vozes
e às coisas
o poeta dorme
sem se saber
ignora o poema
não tem nada a dizer
o poema péssimo
revela
ao ser lido
que há no leitor
um poeta adormecido
o poema péssimo
(por péssimo) pode
ser comovido
inda que errado
em sua emoção
inda que truncado
em sua dicção
ele guarda um barulho
de quintal, de sala,
de vento ou de chuva
de gente que fala:
ivo viu a uva
o poeta ao ler
o péssimo poema
nele não se vâ
na palavra ou no verso
onde não se lê -
se lê ao reverso
em seu vir a ser
e assim vira ser
já que a escrita cria
o escrevinhador,
soletra na pétala seu nome: flor
o mundo que é fácil
de ver ou pegar
é dificil de ter:
difícil falar
a fala que o dá
e a fala vazia
nem é bom falar
se a fala não cria
é melhor calar
ou - à revelia
do melhor falar -
falar: que a poesia
é saber falhar
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a boca não fala
o ser (que está fora
de toda linguagem):
só o ser diz o ser
a folha diz folha
sem nada dizer
o poema não diz
o que a coisa é
mas diz outra coisa
que a coisa quer ser
pois nada se basta
contente de si
o poeta empresta
às coisas
sua voz - o dialeto -
e o mundo
no poema
se sonha
completo.
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