segunda-feira, 1 de julho de 2013

Depois da febre pode ser um bom título

Vou escrever desordenadamente tudo que devia ter escrito há muito tempo. Agora, mais frio, tudo fica mais pobre também. E tenho tentado escrever uns poemas. Deixo aqui os rascunhos desse meu processo de criação.

Lucas Nascimento está triste
quebraram o canteiro de flores
Lucas Nascimento está inerte
As coisas se apologizam
Lucas Nascimento está íngreme
Como um motor que enlouquece
Um balanço quero dizer
Porque quebraram o canteiro de obra
digo de flores
o canteiro de obras de obras das flores
Essa paisagem de luz, alumínio
quisera eu ter sabido
mas essa paisagem
de alumínio e muita luz.

Entre a classe média e a favela, eu disse, tentando me colocar diante dos gritos. Porque fui atingido no meu sofá. Porque eu tinha uma história e perdi. Porque nunca participei de nenhuma ONG, então como fazer uma arte favelada? Porque eu eu tinha uma história e perdi, porque não disse, perdi a memória da língua, a memória da boca, a memória da articulação, a memória do maxilar. Porque não fui à Maré. Porque fui atingido no sofá mas, antes disso, fui atingido por quatro balas divulgadas como perdidas na minha força, na minha mão, na minha migração, na minha tradição, no meu pão, café, vinho, santa ceia, na minha estrada dias a pé, viação Itapemirim, becos, fios, praça, feira de Itaipava, invasões policiais, escola municipal 175 joão de camargo, atingido no meu domingo, duque de caxias, no meu olhar cheio de terra espanto surpresa desconfiança ameaça medo raiva inveja e dificuldade para compreender certos signos. Raiz antieletrônica. Quando não se tem acesso à rede, quando não se sabe usar um computador, quando as letras no teclado não afzem sentido, quando se pede ajuda para ligar um aparelho de TV, um aparelho celular, uma máquina fotográfica. Em algum lugar tudo se toca, e sei que é plantando e colhendo. Mas no meu sofá isso não pode ser. Estou tentando fazer algo útil mas minhas questões de ego me puxam para um conflito íntimo. Eu prosseguiria num texto cheio de entres, entre a classe média e a favela, entre a universidade e os analfabetos, mas esqueci, devo estar mais resolvido hoje.
A única maneira de não ser vítima é sendo criminoso. Quero dizer pra mim. Quero dizer pro meu discurso.
Violência presa na goela, nos pulsos.
Para não me tornar uma pessoa insuportável. Respiração, força, anos de estudo. Mas troquei pelo cigarro.

Talvez
porque menos com menos é positivo
Esse modo de me manter vivo
Esse modo de me manter morto
Esse modo esse medo
Mistério, sorriso torto
Disfarce adquirido através de muita técnica ih anos de estrada
Havia algo que rimava com cio, perdi o verso
e o cio
ali na esquina
mas silencio. Silêncio. Santo vazio por dentro
Algo que rimava com raiva
E lá estava eu
E lá estava
E lá estava eu
Eu lá estava
Vivo.

Hoje faz falta da raiva que joguei fora. Eu devia estar jogando lixeira dentro da Alerj. Como quem salta de uma cachoeira muito alta. Atirar uma bomba na Alerj. Como quem salta de uma cahoeira muito alta. Mas sem estilo, por favor, se for possível.
Quero conversar com as pessoas nos trens, nos ônibus. Quero ser a louca do trem. Proposta pra composição. Só consigo pensar nisso. Me tornar a louca do trem. E sair pelas ruas gritando, falando só.
Julio me impressionou muito no último encontro. Fiquei feliz. Fui atingido por ele. Uma leve agressão necessária. Ele deu uma lixeirada na minha cabeça, fiquei um pouco perdido. Entendi umas coisas. Entendi o que é impulso, o que é imediato, o que não é mental, o que é humano, ou o que ainda é humano.
Mesmo assim fiquei pensando nos atos simbólicos, nas imagens que representam coisas, nas ações que são importantes porque representam. Elas não bastam. Elas representam porque foram imediatas, elas se deram em relação, e nosso olho registrou como símbolo. Nosso olho registrou como imagem, como algo emblemático.
O que fazer que possa ser simbólico, espetacular e "eficiente"?
O que fazer que possa ser um modo de relação, algo que fiquei na ação, no momento, e seja "eficiente"?

Me apaixonei pela paixão de todos.

Enquanto tudo acontece eu durmo, de verdade. Hoje dormi à tarde e sonhei que a gente se encontrava na praça em frente à casa do Pedro. Usávamos uma casa daquelas pra ensaiar, um apartamento de primeiro andar. Eu tinha outro compromisso depois, pessoas desse outro compromisso chegavam: Bruna e Marcelo Isabella perguntava se alguém queria começar. Eu respondia sonoramente que sim, exageradamente feliz, mas desistia de ler o que eu queria ler. Mesmo assim a gente continuava meio eufórico. Propus que todos dançássemos. Começamos. Dora também estava lá dançando. Eu dançava de verdade, e de repente me sentia falso, mexendo demais o corpo: isso me deixava rígido, me fazia bater o pé com força no chão. Houve uma dispersão, as pessoas saíram da sala. Num quarto, num canto, eu conversava com Tomás, que estava triste, com o cabelo cortado de modo fashion. Ele não queria ter feito isso, mas, como disse, seus cachos tinham se desmanchado, ele estava com cabelo liso (sem interferência, assim, misteriosamente), então teve de fazer um corte novo. Ele olhava pouco nos olhos, falava baixo, e minha preocupação o pressionava e acuava, porque estávamos num canto e eu fazia muitas perguntas. Esse quarto tinha luz, mas lembro que o resto da casa tinha luz da rua ou de abajures, ou uma luz muito fraca e recortada. Era uma casa mais comprida do que quadrada, talvez isso tenha dispersado a dança, acho que não ficamos em roda, perecia um corredor de pessoas. Tinha muitos móveis, mas espaço pra dançar.

OBS.: Não sei o que quero dizer com "as coisas se apologizam"

Luquinhas


2 comentários:

  1. Eu gosto muito!
    tanto...
    "Porque eu eu tinha uma história e perdi, porque não disse, perdi a memória da língua, a memória da boca, a memória da articulação, a memória do maxilar."

    eu também perdi. perdi a semana passada... também perdemos, de séculos. Esquecemos que nos batem e damos a outra face, e a mão, e a bunda. E montam na gente. E a gente goza.

    To bebendo um copo de toddy. Não bebo leite há um ano. to gozando com um copo de tody. Amanhã talvez eu tenha gastrite. Talvez não...

    Lembrei da vó. Uma senhora de gênio muito forte que torce pela manifestação, mas sem vandalismo. "Morro de medo disso". Ela se cala quando ninguém concorda com ela. Só volta a falar quando alguém faz coro (mesmo que seja o bonner). coro. Aceitação. 1, 100mil ou 10 mudos esperando aceitação.

    Os nossos tempos são sempre os piores, né?

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  2. Fui atingida em casa também. Na cabeça.
    Querendo calar a televisão, mas com um prazer sádico em escutar tanta violência explícita. Sem acreditar. mentira. dedo na cara MENTIRA!
    Com invejinha de quem estava lá. De quem criou vínculos espontâneos com pessoas desconhecidas. Sentiu a vibração do nós. De quem pediu ajuda. De quem ajudou. Com medo dos outros lugares. Da maré. Não iria na maré, nem se eu estivesse podendo... Absurdo. Muito medo da Maré...
    Medo pelo filho da cozinheira da vó do meu amigo, que foi preso, saiu na globo como bandido e tá em bangu2. Tá e estará por um tempo.
    A pior é a impotência. Por isso o facebook, pra disfarçar que eu estou deitada no sofá.

    Quero há muito tempo ser uma louca do trem.
    É uma viagem de garota. Dançar balé no metrô. Quero aprender a dançar balé para dançar no metrô. Subir nas barras dentro do vagão. Dançar, ser um ponto em movimento passando leve pelas pessoas paradas, presas no chão. (mas fico lá, presa no chão. às vezes deixo o balanço do metro me levar e me equilibro livremente). Ou cantando bem alto.
    Flash mob - um entra no metrô, no vagão que está outro. Não interagem. Um começa a cantar. Outro demora, mas canta junto. Na outra estação, um sai. O outro para.

    Contei pra vocês o meu sonho?
    Estávamos no asterius/sujinho e a polícia vinha. Nós nos separávamos entre a galera e jogávamos para o alto várias balas (juquinha). As pessoas pegavam e atiravam várias balas nos policiais.

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