domingo, 2 de junho de 2013

Uma linha invisível

uma linha invisível  - João Batista Ferreira

a palavra é corpo vivo 
do instante que se foi agora
a palavra é resto da experiência
a palavra é a breve encarnação do instante-já
a palavra é a tradução 
do que mal sei
a frágil ponte-passagem 
que na fração 
de um momento se entranha
no tecido do mundo
a palavra é uma linha
invisível sobre o abismo
a palavra é o traçado
impossível entre o que não sabemos
e aquilo que pensamos ser
a palavra estará para sempre
morta se teu olhar não a encontrar
a palavra estradafora
persegue a sombra
do que fui-estou-sendo
a palavra inventada
faz nascer o que não existia
a palavra mal toca a escuridão
(a palavra muda
a tristeza errada-certa
no rosto da mulher encurvada)
a palavra não sabe de si
mas sua ignorância me faz sentido
a palavra obtusa
perfura o opaco tecido
das horas planas
palavra que simescreve
mescapa entrededos no deserto
da palma da mão
palavra viva
atravessada pela experiência
intraduzível do mundo

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